segunda-feira, 4 de julho de 2011

Uma análise do Documentário "Capitalismo, uma história de Amor" feita por um aluno




Um aluno meu, Bruno Marques fez um ótima análise do documentário do Michael Moore "Capitalismo: Uma história de Amor" e decidi publicá-la aqui neste malfadado e abandonado blog deste que vos escreve. Espero que gostem e em breve, voltarei a escrever.



CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA DE MINAS GERAIS
                    DISCIPLINA: GEOGRAFIA                                  PROFESSOR: DANIEL MOREIRA                     
                    ALUNO: BRUNO MARQUES MACIEL                                CURSO: INFORMÁTICA – 2º ANO

Capitalismo, uma história de amor
Uma amostra de como o sofrimento de uns se torna uma novela apaixonada entre ricos e o seu dinheiro através desse sistema, o capitalismo.

“Capitalismo, uma história de amor” é um documentário dirigido pelo famoso e polêmico diretor Michael Moore no ano de 2009, entre os meses de fevereiro e julho em meio à crise americana, que não terminou até hoje. E é exatamente sobre ela e todo o sistema corrupto e falido que levaram a sua formação que o filme discute, ou melhor, critica, ironiza e debocha.
De forma totalmente parcial, Michael Moore produz um documentário que mostra as diversas faces do capitalismo ao longo do século XX até os dias de hoje, começando da retomada do sistema financeiro após a Crise de 29 com o governo Roosevelt, passando pelo capitalismo de classe média, com o Welfare State nos meados do século, e chegando na depreciação do sistema a partir do governo Reagan principalmente, depreciação que se intensificou até os dias de hoje, segundo Moore.
Em 1929, os Estados Unidos sofreram uma forte crise que se transladou por todo o mundo. Essa crise foi causada, simplificadamente, por uma superprodução que não foi consumida, levando a queda brusca dos preços. Os agricultores, sem ter onde armazenar sua grande colheita, tiveram de fazer grandes empréstimos e logo perderam suas terras, assim como as indústrias que não conseguiam suprir os gastos da produção pois seus produtos não eram comprados. Isso levou ao desemprego em massa e as bolsas de todo o mundo quebraram.
Então, o eleito presidente Franklin Roosevelt adotou uma nova política econômica totalmente diferente do então vigente liberalismo para recuperar os Estados Unidos: fez grandes obras de infra-estrutura, criou vários empregos assim como o salário-desemprego, etc. O racista Franklin Roosevelt é visto como um herói no documentário de Michael Moore, esquecendo-se que um dos fatores que ajudaram a recuperação dos Estados Unidos foi a entrada do país (determinada por ele) na Segunda Guerra Mundial, na qual mais de setenta milhões de pessoas morreram. Porém, é incontestável que as medidas políticas adotadas por ele, chamadas New Deal, reergueram seu país e aumentaram muito a qualidade de vida dos norte-americanos.
Esse tipo de postura econômica adotada por Franklin Roosevelt é chamada de keynesianismo e perdurou até 1970 quando o neoliberalismo foi adotado no Consenso de Washington. Nesse período, a classe média dominou os Estados Unidos e o capitalismo se mostrou “amigo” das pessoas. Michael Moore se mostra como criança e diz que adorava essa época, pois podia ter tudo o que queria, seu pai, funcionário de uma fábrica de velas, poderia dar-lhe tudo como cidadão da classe média. Todavia, Michael Moore não retrata apenas o lado bom e mostra que todo o bem-estar das classes ricas e médias da época estava apoiado sobre uma classe pobre, operária que vivia precariamente e sobre a destruição da Europa e Ásia que recorria a altos empréstimos dos Estados Unidos para se recuperar.
Contudo, Michael Moore não mostra o fim do keynesianismo como o vilão, mas sim a eleição para presidente de Ronald Reagan (presidente de 1981 a 1989), ex-ator que continuava atuando na presidência para deixar os banqueiros de Wall Street fazerem o que quisessem para aumentar as suas próprias contas bancárias sendo que a sua principal arma era a especulação. Com Ronald Reagan, os banqueiros e empresários tinham um plano simples, “recriar os EUA para servi-los”, nas palavras do próprio cineasta.
Além dos exageros de Michael Moore, sua argumentação é realista e feroz. Segundo ele, a partir desse governo, as famílias foram encorajadas a fazerem empréstimos e consequentemente se afundarem em juros exacerbantes. Assim, a classe média foi se extinguindo – muitos migraram para a classe pobre, pouquíssimos para a classe “privilegiada” enquanto famílias inteiras eram despejadas de suas casas hipotecadas por não terem condição de pagar os crescentes juros.
Wall Street se infiltrou com cargos na política por todos os governos a partir da década de 70. As pessoas não reagiam contra o capitalismo, pois as pessoas temiam o outro sistema vigente, o socialismo, outra arma dos poderosos para intimidar a população. É possível perceber o modelo anti-socialista vigente por toda a segunda metade do século XX nos Estados Unidos quando assistimos aos filmes e vemos os moçinhos norte-americanos salvando o mundo das mãos dos vilões socialistas, frequentemente soviéticos (assista “Indiana Jones”, por exemplo).
O desalojamento de famílias com a casa hipotecada é o tema base para a construção de sua crítica ao sistema, explorando o sentimento das pessoas que têm suas casas tomadas. E o filme varia entre extremos mesmos, entre a tristeza dessas pessoas a comédia e ironia de Michael Moore tentando pegar o dinheiro roubado pelos empresários dos contribuintes americanos com um carro-forte em Wall Street.
Os Estados Unidos são hoje uma nação totalmente liberal, como mostra o documentário. Não há sistemas públicos, as escolas, hospitais, prisões são todas privadas. E isso é realmente um problema, afinal quem não tem dinheiro não conseguirá os direitos básicos que são garantidos em lei a cada pessoa. Os capitalistas usam esse privilégio e roubam as pessoas em situações absurdas, como no caso da cidade de Wilkes-Barre, Pensilvânia, onde o reformatório juvenil foi privatizado e jovens passaram a ser presos por razões absurdas e a ficarem mais do que o tempo previsto, pois o reformatório recebia do governo para isso e o juiz que condenava as crianças era subornado para condenar cada vez mais.
Outro fato absurdo apresentado na reportagem é de empresas (inclusive grandes, como Bank of America, City Bank, Wal Mart, Nestle...) que faziam escondidos seguros de vida de seus funcionários e esperavam a sua morte para lucrar com esses seguros que não eram repassados para as famílias dos mortos. Segundo as palavras do advogado Michael D. Myers, entrevistado por Michael Moore, “num seguro de vida normal, onde alguém se protege contra a perda de um ente querido ou provedor da família, não se deseja a morte dessa pessoa. Com esses seguros, as empresas que os compram, querem que os empregados morram segundo as projeções da apólice. Vale-se mais morto que vivo para uma empresa.” Mas por que as pessoas não reagiam, não iam contra o capitalismo? Segundo o documentário, porque elas também tinham esperança de ficarem ricas – só que os já ricos nunca iriam dividir sua fortuna com ninguém.
E assim, com outros exemplos, Michael Moore conduz seu documentário até chegar a crise financeira atual – um rombo em Wall Street que começou com a crise imobiliária norte-americana. As empresas abriram falência e foram socorridas pelo governo norte-americano. Porém, das milhares de pessoas que perderam suas casas, seus empregos, nenhuma foi socorrida pelo governo norte-americano.
O que o documentário mostra então é uma reviravolta – as pessoas socorrem os bancos de falirem e não serem socorridas foi ultrapassar o que o povo norte-americano poderia agüentar. Pessoas passam a fazer protestos nas ruas, nas empresas, como o caso dos funcionários da “Janelas e Portas República” que invadiram a fábrica e lá se instalaram por quase uma semana por serem demitidos sem aviso prévio, perder seus planos de saúde, entre outros,  chamando a atenção da imprensa e do governo.
As eleições vieram nos Estados Unidos e trouxeram uma nova esperança com Barack Obama, pelo menos é o que Michael Moore mostra no documentário, fazendo de Obama herói de seu filme, assim como fez com Roosevelt. Ele mostra pessoas que realmente acreditam nele e em suas promessas de reerguer os Estados Unidos e ajudar o povo. O problema é que a campanha de Obama também foi patrocinada pelos bancos, logo como ele pode voltar-se contra eles? O “golpe” final é dado quando Obama ganha às eleições e as pessoas se emocionam, crentes em um futuro melhor, apesar de todo o esforço feito pela oposição de denegrir Obama, chamando-o de socialista, um tiro que saiu pela culatra, afinal os americanos já não acreditavam tanto mais no sistema capitalista.
Já passado um tempo e observando as promessas de Obama, observamos que ele na verdade decepcionou, não cumpriu várias de suas promessas e agora tenta se reerguer com uma morte suspeita do odiado pelos americanos Osama Bin Laden. Uma coisa é certa – a crise ainda não acabou nos Estados Unidos.
Fazendo um balanço final do filme de Michael Moore percebemos que ele utiliza de muita ironia e deboche para mostrar o quão sujo e corrupto é o sistema capitalista, como a cena final do cineasta cercando bancos em Wall Street com uma faixa amarela utilizada pela polícia com os dizeres: “Cena do crime. Não ultrapasse”. Deixando o sensacionalismo de Moore de lado, “Capitalismo: uma história de amor” é um filme interessante de se assistir, abre nossos pensamentos sobre como estamos sendo manipulados na esperança de riqueza e prosperidade e como nosso consumismo aumenta a riqueza de poucos em detrimento da crescente miséria da maioria. 

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